abre a tua alma e crescer-te-ão asas

Julgava seres o ser perfeito… claro que tudo não passava de ilusão afogada em devaneios que não revelo.
Rostos de azul profundo… uma flor que não nasce com o amanhecer.
Caóticos sonhos que se enlaçam, pedras no encalce de uma viagem… terna e brusca na imensidão.
O verão chega e depressa se esvai em palavras e gestos devassos como aqueles que nada mais objectivam que o acordar!!!!


excerto de Um café virado para o Sol
Dourada mortalha do adeus


De tão dúbio dia
inveja a noite

Completa-se o círculo
no crepúsculo


Anoitecer das figuras chinesas


Se olhares para a pétala de uma flor
verás como ela te possui


Escorrem rios nos meus olhos
Um sorriso num gesto


Adoro-te em cada olhar
onde me perco
no complexo que abraças.
Que madrugadas nos consolam e que pensamentos nos assolam ao anoitecer? Imagino a linguagem dos sons nas cores do crepusculo sobre o qual me prosto.
Não mais palavras... as que outrora lancei ao vento das memorias...


Adormeço a pensar-te... imaginar as vestes dos sonhos... ritual.

Que imagem vislumbras nesse instante em que fechas os olhos?


a solidão... um reflexo de um beijo desejado, fervorosa e ternamente desenhado em sonhos.

Al Berto...


«retrato de Al Berto, encenado por Paulo Nozolino, em homenagem a Caravaggio»[capa de O Medo]


Ofício de Amar

já não necessito de ti
tenho a companhia nocturna dos animais e a peste
tenho o grão doente das cidades erguidas no princípio doutras galáxias, e o remorso

um dia pressenti a música estelar das pedras , abandonei-me ao silêncio
é lentíssimo este amor progredindo com o bater do coração
não, não preciso mais de mim
possuo a doença dos espaços incomensuráveis
e os secretos poços dos nómadas

ascendo ao conhecimento pleno do meu deserto
deixei de estar disponível, perdoa-me
se cultivo regularmente a saudade do meu próprio corpo.

Poema de Al berto in O Medo - Livro IV "Sete dos Oficios (1980)


(...) ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte.

excerto Al Berto, Horto de Incêndio


uma lembrança do dia 13 de Junho... as saudades e o preenchimento que deixas(te)
«Amo-te»

e à noite, quando a Lua se ergue esplendorosamente Mulher, recordo as palavras que um dia pronunciaste ao som de intensidades e neblinas que criámos.



Fotografia de Cristiana Gaspar

O olhar...

O olhar... o teu que por momentos, nem sempre ténues, vais depositando em mim.
Entre sorrisos... visões derramadas timidamente. corpos em palavras trocados... sentimos vontade de mais por sobre histórias partilhadas.

Respondeste-me num olhar... agora questiono o receio.

Sempre não vieste e o teu sorriso é meu.

"Exposta" sentia-te, imaginava-te... agora revejo-te
(….) a espera faz de mim parte como um dia a saudade.
tenho a estranha vontade que te esqueças de mim para que me esqueça e encontre

A liberdade desponta em cada olhar fulminado pelo passado da lembrança, cada lágrima nascida que alimenta a vida.


Uns olhos que se cruzam. um anoitecer em chamas nas distantes terras do meu ser. celebram-se por entre toques destilados a medo os anseios de sentir.
passamos o tempo que vamos chamando de passado em constantes deambulações diversificadas que julgamos unas. deixamos para trás desejos, emoções numa procura atrofiada de um sentido que apenas nos apercebemos quando por fim o tempo se sente mais pesado e lentamente veloz.
Sob as aguas que havia eu derramado
chorei-te
e gritei o teu nome

Estou assim hoje... como o barco...


Fotografia de Cristiana Gaspar


poeticamente despojado no seu eu
Hoje agrada-me que não saibas se as palavras são deste momento ou de um passado ou futuro, ainda para sentir... e viver.

Lamento apenas as lagrimas que esqueci e abandonei ontem por mim... apenas.

Um dia

Em que estrada, mar, montanha te encontras tu?!...que te sinto e penso como se estivesses aqui!
Nesta serenidade cantada pelo dedilhar de uma guitarra deambulando ao sabor do tango que exalamos...

Es parte de mim... envolvemo-nos

Percursos

Porque será que nos libertamos tão facilmente de umas coisas por outras ?
Sim, nada/ninguém é eterno ou insubstituível.
Ainda assim continuo sem perceber e faço um esforço para aceitar… e continuo a acreditar em mim, e mesmo não estando em vós, vocês estarão sempre em mim.

Aguardo…

Um afastamento traz sempre uma aproximação… nem que seja (apenas) a nós mesmos

A voz...

Conheci-te ontem num almoço, tu entre os músicos. Não ousei falar-te. Pediste-me o café que havia esquecido entre a multidão de pessoas com quem estavas… e eu estava. Apercebi-me quando nesta manhã te senti observares e olhares-me.

“A tua voz… est merveilleuse!”

E cantamos… ouviste e vieste… Nesse momento senti-me sair do corpo.
Naquela noite, especial, excitante, penetrante, louca… subimos ao palco…

Um merci et… à bientôt…
e « Vive ! »

um pequeno registo de jazz
Estou presente
em cada passagem do tempo
em que te ausentas.



Fotografia de Cristiana Gaspar

quando surgiste num fechar de olhos

Imaginários sons

Tempos houveram em que fazia sentido estar ligada ao mundo por tecnologias (telefone).
De tempos a tempos, breves, ouvia-lhe o som e sabia-te.
Nestes tempos, os de hoje, ontem, amanhã mantenho-me ligada e imagino que toca… mas não… e não sei se ouvirei os sons novamente.

Estrada

Soavam pausadas notas de um baixo. por entre um copo partilhado e um olhar, a acústica desenvolta, livre. as pernas tremiam mesmo assentes numa cadeira, essa poltrona de sonhos. um cigarro timidamente enrolado sobre um folha onde depositava a caneta que entoava cânticos, intimidades. passou-se uma hora e a voz, rouca e sedenta, quente em desejo, fervosa em sair. os olhos fechados. um Porto que acalma e seduz...
“Naquela estrada onde estás
aí sem mim,
perco-me no sonho de entrar
em ti pra mim (…)”



uma breve nota de uma passagem, momento que se perpetua
Já não nos falamos, ouvimos, olhamos. Mas no entanto deixaste em mim a escrita, a que trocamos. Esse prazer agora renascido, mágoas e sorrisos onde nos encontramos e aproximamos... mais e mais intensamente.
Aguardo as palavras escritas sobre o papel, teu, tu... cujo aroma me recorda e transporta para o que julguei faltar.
Deixei-me levar pelo impulso, a vontade de mim. Ao cair da noite segui aromas que sentia, telas até então ténues… tão ténues que mesmo os contornos eram tépidos. Misturas de sons como terapia. Calores desenvolvidos entre brincadeiras e olhares trocados.
Era noite já nesse local à beira-mar onde parei para senti-lo. Literalmente entrei nele… deixei que me possuísse… húmida.



Fotografia de Cristiana Gaspar
Estávamos em finais de Primavera. Cores e formas abençoadamente desenhadas. Um olhar que se ilumina de entre belezas que atraem e persistem. Cairás no desejo de penetrar o que entregas ao sentir.
As mãos tão ternamente quentes em ardências de alma que suspira em suores.
Vejo-me dissipar de mim ausências…músicas que entoam as árvores no ocaso.



Fotografia de Cristiana Gaspar
Momentos partilhados entre silêncios e respirações ofegantes... recordações, saudades... tudo o que desejamos entre dissertações musicais e palavras sentidas.

assobios na entrada

Que aromas se escondem nestas madrugadas, alvores delineados, partilhas do que somos.

Replays perpetuados por noites e vezes que não se moldam em distâncias.

Serenidades alcançadas.
Caia a noite num copo vazio destilado a solidão. Sinto-me so entre gentes... passam enquanto permaneço.
Alguém me serve mais um... e eu continuo imovel e serena nos pensamentos que deposito num papel.
Desencontramo-nos nas gotas derramadas... esse receio em ânsia.