abre a tua alma e crescer-te-ão asas

demos as mãos e todos os olhos do mundo sobre nós. começamos por não falar e sorrimos apenas numa procura.. caminhámos e caminhámos encostas trilhos naturalmente desenhados para nós.
Era já Verão… os corpos cálidos de ardências. o sol em chama.. e para mim ainda era Primavera. ainda me sentia desflorar para o mundo, essa primeira vez como o choro. e chorei. no instante em que avistámos o que todos procuram incessantes cavaleiros. e só estávamos nós, na imobilidade do espasmo quase orgástico. e permanece ainda em mim uma marca desse momento…

de entre tímidas inocentes perguntas dum conhecer, um ritual que ousamos, apagamos o silêncio dos outros olhares do mundo e ficamos apenas eu e tu
(...)



(...)
(...)
mas esse espaço continua assim… despojos infiltrados na madeira que um dia luziu, nas estantes onde um dia um sorriso despontava pela grandeza que exalavam os livros pensamentos desse tempo… o tempo em que a altivez sobressaía dos poros… um inclinar ténue da cabeça ao sol, permitir o vento delinear em imensas linhas o contorno de um leve e sedutor sorriso, raiar impenetrável … sedução.

os olhos levemente cerrados dizendo « vem! ousa!».

todas as conversas em silêncios faladas, nesse estar ouvindo, os silêncios que a tantos assustam e eram assim… puros, verdadeiros, compreendidos. as palavras que tantas e repetidamente apenas foram afastando esse olhar soberanamente mel duns lábios que semblavam mover-se permanecendo assim… ávidos de sentir.

por uma vez a mala desfeita. roupas que permaneciam sempre no albergue do ir ousavam seguir o estádio do ‘aqui’ e assim confortavelmente penetravam os espaços julgados já libertos. numa ausência de espectros permaneciam…inteiramente ali.

(...)



(um outro pequeno breve excerto...)
(...)
cigarros e beatas espalhadas, a visível decadência de um quarto que não conhecia a palavra limpeza há muito muito tempo… incontáveis horas, dias, anos… como a alma quando vagueia e se perde pois o caminho julgado contínuo se transformou em vida.

folhas vagamente escritas espalhadas pelo chão numa confusa noção de arrumação. Haverá melhor espelho da alma que o nosso refúgio? esse espaço que julgámos nosso, apenas e só nosso… e de alguém, alguém que nos surge (semblantes) com a chave de espaços que nem mesmo nós próprios sabíamos da sua existência? compartimentos toda a vida trancados por medos, traumas, receios, desejos, expectativas…?!? esse alguém a quem unicamente abrimos e destruímos os entraves, os muros, as protecções exaustivas, o ‘mau feitio’ deixado de parte… o sermos finalmente nós numa descoberta simultânea de ambos (e eu também de mim… )…?!?...

(...)

(breve excerto... )

negra tristeza

entre infernos constantes gritos revoltas feitos

ja de tão longe os erros

se as lagrimas... de sangue dor angustia... impotência
pudessem...














despertei com a flor
que ternamente depositaste no meu dorso
enquanto me olhavas dormir

e, se nas gotas de chuva sentires a minha alma tocar-te
como pela mão do Sol
então possuis-me

e eternamente
a teu lado adormecerei e acordarei para o novo dia que contemplaremos.
e no rosto

escorrentes lagrimas de sangue
em que estrada, mar, montanha estas tu
que te sinto e penso como se estivesses aqui??!!...

nesta serenidade cantada pelo dedilhar duma guitarra
deambulando pelo tango que exalamos...

envolvemo-nos

Time After Time*

Melodia Orgástica

Iniciam-se suaves tons, tímidos de um saxofone. Esse beijo trocado entre receios, desejos, intimidades.
Um toque desenvolvido – ousam as mãos na descoberta.
Nesses 5min (e 40s) os instrumentos envolvem-se, dançam como os amantes. Uma sedução profunda, esse primeiro orgasmo, o rompimento, clamor altivo desse sopro…
Calma…3 minutos de profundo entendimento, essa conversa de instrumentos (corda, sopro..) – como encaixam bem os corpos desnudados, húmidos de prazer.
De entre as provocações, prolongamentos, é chegado o momento… explosão tão serena e calidamente abraçada. Gemidos uníssonos… orgasmo(s) de amor.
Os amantes em terna copulação pelas vastas ruas do desejo.



*Miles Davis ‘Live around the world’
(publicado inicialmente em Bebedeiras de Jazz)

Fotografia de Cristiana Gaspar

sob as estrelares luas que nos aquecem e recordam o sol que nos arrefeceu...

O que faltara para o ... conheço?!













Fotografia de Cristiana Gaspar


Náiade que dormes
no teu delicado leito

Embriagas a noite
com a tua beleza

Seres expelem-se na tua margem.




Criar um hospício
num espaço limitado
pelas coisas




José Clemente Orozco, frescos en el Hospicio Cabañas, Guadalajara, 1938-1940











Fingi...
como as imagens

como tu


(claro que a falta a pricipal imagem... virgindade(s) )
A vida como flocos de neve desenvoltos em espirais vertiginosas de angustias... sentir o chão num abraço. vem. gela-me o corpo em ardências de vida psicoticas formas néons corpos nus desejos

reinventa-me







percorri-te ao longo de
uma folha onde
delineava as linhas
do teu corpo
em soluçados traços
caligraficos


Abrasivas memorias
nos asfaltos da vida

e essas gotas de sal
humidamente
(es)correntes de mim






Graciela Pierangeli, Lagrima Azul
Rastejar até aos pés
da mais bela flor.

Beijar a terra
como que um perdão
se pedisse.

Toca-me.
Deixa-te flutuar no universo.

Ser criança
Sonho de voltar
A fuga sem destino
Estação
Clamoroso.